Intensificação do trabalho pode prejudicar saúde do professor


A `Saúde do Professor` foi tema de palestra realizada pelo Sinpro Campinas no dia 27, dentro da programação do Mês do Professor, por ser considerada uma categoria vulnerável a problemas ocasionados pela sobrecarga de trabalho e exposição a fatores de estresse que os professores têm sofrido em resposta à intensificação do trabalho.  

A fonoaudióloga Isabella Bonzi, com especialização no Centro de Estudos da Voz de São Paulo, falou da importância da voz para o professor e dos cuidados necessários para mantê-la saudável. 

Uma respiração adequada, entonação, hidratação constante, alimentação balanceada e a qualidade do sono, segundo a especialista, são fatores que devem ser considerados, para que o professor não sinta cansaço depois de um dia inteiro de aulas, tendo que falar para classes lotadas e com alunos barulhentos. De acordo com a fonoaudióloga, uma pesquisa realizada com professores da rede pública de São Paulo revelou que 63% dos entrevistados apresentavam queixa de voz. 

"A voz é o instrumento de trabalho do professor e por isso deve ser bem cuidada. A gente sabe que nem sempre a sala de aula tem a acústica adequada. Por isso é importante falar voltado para o aluno, circular pela sala de aula. Tomar goles de água ao longo do dia inteiro", recomenda Isabella Bonzi. 

A especialista diz que é importante permanecer alerta e após 15 dias de alteração vocal procurar um otorrinolaringologista e um fonoaudiólogo, para ver se há algum problema mais grave. 

Uma dica é assistir o vídeo Minha Voz, Minha Vida, disponível no You Tube e que conta a história de dois professores, um que cuida da saúde da voz e outro que comete todos os erros que podem levar a lesões graves. 

Estresse

O encontro foi coordenado pela médica e professora da Unicamp Maria Cândida Ribeiro Parisi, especialista em Saúde Pública e Diabetes pelo Instituto Nacional de Endocrinologia - Havana/Cuba. A especialista questionou à platéia quantos exerciam a profissão há mais de 15 anos, e 80% das pessoas ergueram a mão. Então, a professora falou das mudanças que a profissão sofreu ao longo dos últimos 20 anos com a modernização e a chegada das novas tecnologias. 

"Fora todas as mudanças que ocorreram ao longo dos anos essa é uma profissão que em vários momentos tem muito estresse. Mas uma coisa pontual na carreira do professor são os ciclos de estresse sempre no final do 1º e do 3º trimestre, períodos em que o volume de trabalho aumenta, se acumulam os trabalhos e provas", avaliou. 

Segundo Maria Cândida, um dos problemas que mais afeta os professores hoje, são os chamados transtornos mentais e comportamentais. A afirmação se baseia em uma pesquisa feita em Belo Horizonte com os professores, e que apresentou como maior índice de afastamento os quadros de estresse e depressão, seguido dos problemas do sistema osteomuscular.

"Na maioria dos quadros depressivos aparece primeiro a alteração do humor e do sono. É preciso procurar ajuda o quanto antes, porque evita uma progressão para algo mais grave. Uma das minhas intenções com essa conversa é acender o sinal para que vocês permaneçam atentos e procurem logo tratamento e ajuda. É preciso que a gente se olhe mais, se perceba e se sinta", advertiu a médica e professora da Unicamp. 

Outro problema muito comum à categoria é a síndrome de Burnout (no inglês significa queimar, pifar). Ela se manifesta por um quadro de exaustão emocional, despersonalização, falta de envolvimento pessoal no trabalho. 

Todas essas são doenças dos Tempos Modernos, diz Maria Cândida. Hoje as pessoas, deixaram de se movimentar. O professor está sobrecarregado e sempre com pressa. Come correndo, nas férias não tira férias. É preciso criar pausas durante o dia - e todos os dias - e reduzir o tempo das atividades negativas. 

"A gente precisa se reapoderar dos nossos direitos. As férias têm que ser usadas para recarregar as baterias. Usar o horário de dormir para dormir, o de comer, para comer. Ter que ter tempo durante o dia para relaxar, fazer o que gosta, mesmo que seja assistir novela", defende. 

Para a médica é preciso controlar as atividades negativas para evitar entrar num moto-contínuo. É preciso limitar o tempo para ler e responder e-mails. Se o professor ou professora começar a perceber algum transtorno ou dano, deve correr e procurar um médico. 

Outra dica importante é tirar 30 minutos por dia para uma caminhada, pois isso funciona bem para evitar problemas cardiovasculares. Tem que saber dizer não para os outros e para coisas. A médica acha mais importante se preocupar com o quanto vai comer e não com o que vai comer. "Comer fruta e fibras é bom, mas não pode ser só isso. Dá pra comer um torresmo sem exagerar. Comer devagar mastigando 15 vezes cada garfada", explica. 

Para Maria Cândida, as atividades com o encontro para debater a saúde, as reuniões do sindicato, a troca de experiências, a atuação enquanto categoria junto à escola fazem toda a diferença para que o professor se mantenha saudável e não se sinta sozinho nem pressionado. "Ser professor é bom demais, a paixão pelo ensinar faz parte do dia a dia, a coisa gostosa de lidar com o aluno, isso não pode ser massificado", diz. 

Fonte: Sinpro Campinas